O imortal e imaturo Punho de Ferro

  

Em 1973 com a intenção de alinhar ao sucesso comercial dos filmes de artes marciais. Steve Engleheart e Jim Starlin criaram Shang chi o Mestre do kung Fu. Quatro meses depois, já em 74, Roy Thoms e Gil Kane davam vida ao imortal Punho de Ferro. 
Pra mim, esse texto veio como uma carta aberta, meu ponto de vista sobre o que encontrei na série Iron Fist.
 Quando você é um fã de longa data, expectativa, realidade e a eterna afeição às narrativas sequenciais se misturam. O que na verdade pode não ser tão bom assim. Na última sexta, dia 17, praticamente 44 anos depois de ser criado, Punho de Ferro ganhou vida na bem sucedida parceria entre Marvel e Netflix. 
Mas os acertos param por aí. Seis episódios foram disponibilizados pra um grupo de pessoas envolvidas com cultura pop e veículos formadores de opinião, antes da estréia, afim de botar mais fogo nessa expectativa. Primeiro erro. 
As críticas foram tão duras que o próprio Finn Jones, o ator escalado para viver Daniel Rand o protagonista da série, veio a público justificar e tentar dar credibilidade à série. Segundo erro. 
Segundo o ator, a série foi feita para agradar aos fãs e não aos críticos. Tudo bem, se eu não fosse um fã e não acompanhasse essa jornada desde os idos de 1980. 
A meu ver a série decepciona em alguns aspectos cruciais. Origem do herói, aqui brutalmente descaracterizada. A modernização gratuita em prol de uma fragilidade pessoal/dramática exagerada e inexistente no panteão do herói. 
O tom sombrio às vezes adotado remete irremediavelmente, assim como póstumas comparações, ao Homem sem medo. Porém, com uma ação menos coreografada. Em poucos momentos as lutas soam realmente naturais. As ideias contextualizadas como pontos de viradas se tornam uma sucessão, no

melhor estilo ; calcanhar de Aquiles, durante a trama. Scott Buck (Dexter, Roma) que será o showrunner da série Inumanos (2017) parece não ter compreendido a urbanidade do personagem, apesar da aposta no caráter místico. Ou, em uma visão otimista, escolhas erradas. 
Claro que o tom falho dos heróis, algo trazido à tona por Stan Lee desde os anos 1960, (em talvez sua maior contribuição) afim de humanizar os heróis e personagens, é até esperado. E, por muito foi o que fez a Marvel ser o que é. Ou melhor, o que era. Mas a questão, ao menos aqui na série, é que bibliograficamente, Daniel Rand nunca foi assim. O que sim, descaracteriza o personagem, mesmo que as duas empresas apostem mais no filão da “rapaziada”. O que no mínimo, desabona o testemunho do próprio Finn Jones. 
Por vezes, o personagem que passou 15 anos se aperfeiçoando, equilibrando e desenvolvendo seu “chi”, assim como sua espiritualidade e habilidade, quase sempre resolve suas cenas com explosões de descontrole e chiliques imaturos. Certamente um tiro no pé de Scott Buck. 
Um dos destaques, Colleen Wing, a ruiva que já foi até um affair do líder dos X-men, aqui é uma oriental (dá-lhe diversidade) e foi bem interpretada pela atriz Jessica Henwick que dispensou dublê em suas cenas de ação. Se você leu um pouco dos velhos gibis, sabe que Colleen foi treinada por seu avô no Japão. A coisa vai bem até que ela passa de guerreira e exímia lutadora ao papel de adolescente apaixonada. Mas nem tudo são trevas. Há momentos, e rompantes cinematográficos de ângulos ora plongée e plano americano em algumas lutas. O que mais uma vez remete nos aos velhos painéis criados por Frank Miller no fim dos anos 1970 e que ditariam uma nova estética ao mundo dos quadrinhos.
A fidelização com o problema do Tentáculo (the hand) que surge como vínculo, e gancho entre as quatro séries (franquia), via Madame Gao, faz sentido. Mas a inexistência de personagens canônicos como Kirigi além da fracassada tentativa de impor Bakuto (um simples líder série B da América do sul nas Hqs ) como uma peça fundamental, não convence.
Em uma época de Easter eggs recheados, talvez tenha faltado referência. E mesmo que por mero protocolo o nome de Stan lee, Jeph Loeb, Quesada e Alan Fine apareçam nos créditos, não é suficiente para transformar a criação de Roy Thomas e Gil Kane em uma opção dramático televisiva de ponta como muitos (inclusive eu) esperavam . Infelizmente. 
Um dos críticos que teve acesso aos episódios de pré-estréia classificou como o primeiro “fracasso” da parceria Marvel/ Netflix. Em termos de referência e caracterização eu até concordaria, mas no todo, achei a análise um tanto quanto bruta. 
Eu sempre nutri um carinho especial pelos vigilantes urbanos dos quadrinhos, outrora tratados como coadjuvantes e por vezes tendo suas revistas canceladas. Boa parte do público terá seu primeiro contato com Daniel Rand e cia, provavelmente como foi com Cage, via streaming. O que eu espero, mude o tom da avaliação. 
Uma das primeiras lições da vida, é que, a expectativa pode ser tão frustrante quanto o tombo que a precede. Provavelmente, isso será lembrado ao fim dos 13 episódios. 
Pra quem se interessar pelo personagem, a Salvat edição capa vermelha, lançou um encadernado com a história com a origem e a saga O Imortal Punho de Ferro magistralmente captaneada por Eddie Brubacker e Matt Fraction. Uma excelente oportunidade de avaliar de perto a mitologia do herói e o que foi realmente levado à tela. 

Luis Maldonalle

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Autor: hqtru

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